Caros todos. Bem Vindos

Caros todos. Bem vindos. Por sermos eternos aprendizes, solicito suas críticas e comentários aos meus escritos. Obrigado.

terça-feira, 7 de março de 2017

AUTISMO - BREVE ESTUDO



1. Quadro clínico da síndrome: Início precoce 
A maioria dos pesquisadores e clínicos concorda que os sintomas do autismo infantil, geralmente, iniciam-se antes dos trinta meses de idade. Indicadores que o processo de desenvolvimento da criança não vai bem podem ocorrer antes dos seis meses de idade. Crianças que choram demais ou são vistas como muito quietas pelos pais, crianças que têm pouco contato visual, não mantêm posição antecipatória ou não prestam atenção aos eventos familiares principais podem estar apresentando sintomas iniciais da síndrome autista. As alterações no ritmo do desenvolvimento da criança também costumam ocorrer precocemente. 
O início precoce é um dos principais sintomas que diferenciam o autismo infantil do transtorno desintegrativo na infância. Na síndrome de Heller, o quadro clínico se inicia após um período de desenvolvimento normal da criança e, geralmente, ocorre após os três primeiros anos de vida. 
O DSM não inclui o início precoce como critério diagnóstico, visto que há relatos de síndromes autistas típicas que se iniciam em pessoas entre 4 e 31 anos de idade, em conexão, por exemplo, com uma encefalite herpética (DELONG, BEAU, BROWN, 1981).

Interação social recíproca
Os distúrbios na interação social dos autistas podem ser observados desde o início da vida. Com autistas típicos, o contato ‘olho a olho’ já se apresenta anormal antes do final do primeiro ano de vida (MIRENDA, DONNELLAN, YODER, 1983). Muitas crianças olham de canto de olho ou muito brevemente. Um grande número de crianças não demonstra postura antecipatória ao serem pegos pelos seus pais, podendo resistir ao toque ou ao abraço. Dificuldades em se moldar ao corpo dos pais, quando no colo, são observadas precocemente. Crianças que, posteriormente, receberam o diagnóstico de autismo, demonstravam falta de iniciativa, de curiosidade ou comportamento exploratório, quando bebês.
Frequentemente, seus pais as descrevem como: "felizes quando deixadas sozinhas", "como se estivessem dentro de uma concha", "sempre em seu próprio mundo”. Os autistas têm um estilo ‘instrumental’ de se relacionar, utilizando-se dos pais para conseguirem o que desejam. Um exemplo de modo instrumental de relacionamento ocorre quando a criança autista pega a mão de sua mãe e a utiliza para abrir uma porta em vez de abrir a porta com sua própria mão.

FRITH (1991) sugere que a falha básica nos autistas é a incapacidade de atribuir aos outros indivíduos sentimentos e pontos de vista diferentes do seu próprio, concluindo que falta a essas crianças uma "teoria da mente". Esse fato faz com que a empatia da criança seja falha, afetando sentimentos básicos, como medo, raiva ou alegria. As pessoas, os animais e os objetos acabam sendo tratados de um mesmo modo, visto que a criança não percebe a diferença entre um indivíduo que pensa e tem desejos e um objeto inanimado.
 
As crianças autistas não compreendem como se estabelecem as relações de amizade. Algumas não tem amigos e outras acreditam que todas as crianças de sua sala de aula são seus amigos.
A indiferença em dividir atividades e interesses com outras pessoas também é um sintoma marcante (a habilidade em mostrar objetos de interesse para outras pessoas ocorre no primeiro ano de vida, e a ausência desse sinal é um dos sintomas mais precoces do autismo infantil).
Os autistas apresentam dificuldades em manter um contato social inicial, demonstrando problemas para sustentar esse contato, com frequência interrompido prematuramente.

Com o passar dos anos, as anormalidades de relacionamento social tornam-se menos evidentes, principalmente se a criança é vista próxima de seus familiares. A resistência em ser tocado ou abraçado bem como o evitamento no contato visual tendem também a diminuir.

Linguagem e comunicação
Quando os autistas começam a se utilizar da linguagem (ou falham em começar), os pais passam a perceber com mais clareza que seus filhos são diferentes das outras crianças da mesma idade. Muitas vezes, é o atraso na aquisição de linguagem verbal que faz com que os pais procurem ajuda médica.
Apesar desse fato, sinais de dificuldades na capacidade de comunicação das crianças autistas são evidentes mesmo antes do período de aquisição da linguagem verbal, mas passam desapercebidos pelos pais. Nas crianças autistas, a comunicação não verbal precoce é usualmente limitada ou inexistente. Bebês rapidamente desenvolvem uma habilidade de se comunicar por meio de sinais não verbais: demonstram suas emoções pela expressão facial, procuram por objetos de interesse ou por pessoas, antecipam-se para obter contato físico com seus pais. O mesmo não ocorre com crianças autistas.
Usualmente, crianças autistas demonstram sérios problemas na compreensão e utilização da mímica, gestualidade e fala. 
Desde o início, os jogos de ‘faz de conta’ e de imitação social, amplamente observados nas crianças com desenvolvimento normal, são falhos ou inexistentes.
Quase sem exceção, os autistas apresentam atraso ou ausência total no desenvolvimento da linguagem verbal, que não é compensado pelo uso da gestualidade ou outras formas de comunicação. Apesar de não demonstrarem alterações significativas no balbucio (DAHLGREN & GILBERG, 1989), metade dessas crianças não adquirem linguagem verbal e, as que adquirem, apresentam sérios desvios de linguagem. Aproximadamente 37% das crianças autistas começam a falar as primeiras palavras normalmente, mas param de falar, repentinamente, entre o vigésimo quarto e o trigésimo mês.
Os autistas que desenvolveram linguagem apresentam dificuldades marcantes em iniciar ou sustentar diálogos e, muitas vezes, apesar de se utilizarem da fala, não visam comunicação.
Nas crianças que falam, o uso restrito e estereotipado da linguagem é bem descrito. Por exemplo, KANNER (1943) descreveu uma menina autista que seguia uma rígida rotina antes de ir dormir, exigindo que sua mãe participasse de um diálogo que era idêntico dia após dia. Outros aspectos da linguagem restrita e estereotipada são a ecolalia imediata ou tardia, a inversão pronominal, a linguagem metafórica e a invariabilidade do ritmo e tonalidade da linguagem verbal.

Repertório restrito de atividades e interesses 
Completando a tríade diagnóstica, um repertório restrito e pouco criativo de interesses e atividades ocorre com as crianças autistas.
Os interesses da criança autista costumam ser anormais, principalmente, em seu foco e intensidade. Por exemplo, indivíduos autistas podem aprender uma vasta quantidade de informações sobre um determinado assunto, tal como carros ou novelas, memorizando uma gama de informações e conversando de forma insistente e estereotipada sobre o assunto por eles escolhido. Em sua atividade lúdica, costumam focar seu interesse em apenas um determinado brinquedo ou determinada maneira de brincar (ex.: ficam enfileirando os carrinhos durante horas)
Os indivíduos autistas apresentam uma insistência na ‘mesmice’, que se apresenta pelo seu comportamento inflexível e suas rotinas e rituais não funcionais, por exemplo, costumam seguir sempre determinados caminhos até a escola, têm rituais para dormir ou se alimentar. Mudanças no ambiente que a criança costuma frequentar podem causar episódios de agitação psicomotora e agressividade. Mudanças mínimas no ambiente costumam causar quadros mais severos de agitação do que mudanças maiores. Por exemplo, uma menino autista de 5 anos chorou durante quase uma hora até sua mãe perceber que havia retirado um livro de sua estante; ao ter o livro reposto, parou de chorar em segundos.
As rotinas e rituais costumam se agravar na adolescência, chegando até a caracterizar um diagnóstico de transtorno obsessivo-compulsivo. 
Frequentemente, crianças autistas vinculam-se de forma bizarra a determinados objetos ou partes de objetos, tais como pedras, fios, a roda de um carrinho. Adoram objetos que brilham ou que giram (por exemplo, tampas de panelas). Os objetos, usualmente selecionados a partir de uma característica particular (cor, textura), permanecem com a criança durante horas ou dias, e sempre que alguém tenta removê-los, a criança torna-se inquieta ou agressiva, resistindo à mudança. 
Movimentos corporais estereotipados são comuns e apresentam-se sob a forma de "flapping", balanceio da cabeça, movimentos com os dedos, saltos e rodopios. Esses movimentos costumam ocorrer, principalmente, entre os mais jovens e os que têm um funcionamento global mais baixo. Apesar de também estar presentes nas crianças que apresentam apenas retardo mental, nos autistas os movimentos costumam ser mais elaborados e intensos.

Comportamentos inespecíficos associados ao autismo
Apesar de comumente associadas à síndrome, várias características clínicas não são incluídas nos critérios diagnósticos. Crianças com autismo mostram, em geral, um padrão cognitivo desigual e, frequentemente, têm uma melhor performance nas tarefas não verbais e visuoespaciais do que nas tarefas verbais. Sintomas comportamentais associados à síndrome incluem hiperatividade, curto tempo de atenção, impulsividade, comportamento agressivo, acessos de auto agressividade e agitação psicomotora. Algumas pessoas com autismo têm respostas extremas aos estímulos sensoriais, tais como hipersensibilidade a luz, som, toque, e fascinação por certos estímulos auditivos ou visuais. Distúrbios do sono e da alimentação também são comuns nessas pessoas, além de medo excessivo em situações corriqueiras ou perda do medo em situações de risco.
Esses sintomas inespecíficos, apesar de não fazerem parte dos critérios diagnósticos primários, são os que mais trazem problemas para a família e a equipe terapêutica, fazendo com que as crianças, muitas vezes, tenham que ser medicadas com psicotrópicos, para um melhor controle desses comportamentos.

2. Resumo da Discussão dos Resultados
A concordância entre os diversos avaliadores para o aspecto ISR (interação social recíproca), no grupo e no geral, foi verificada por meio do cálculo do coeficiente de Kappa. Constatou-se que houve maior concordância entre todos os avaliadores, para os autistas, nos itens ISR02, ISR03, ISR06 e ISR08. Apesar de as médias indicarem uma baixa concordância entre os avaliadores, ao observarmos a concordância entre cada par de avaliador notamos que nas questões ISR02, ISR03, ISR06, ISR08 há índices que indicam concordância de média a alta entre pelo menos três pares de avaliadores. Ocorreu maior concordância entre as respostas dos profissionais do que entre as respostas dos pais. Os profissionais parecem concordar mais do que os pais quanto à interação social recíproca (os índices obtidos pelas questões ISR03, ISR06 E ISR09 indicam uma alta concordância entre os profissionais).
As questões que apresentam maiores índices de concordância referem-se às falhas das crianças autistas na percepção de pessoas e acontecimentos ao redor, na procura por contato e interação social e no reconhecimento de controles sociais, reforçando que os déficits de empatia são fundamentais para o diagnóstico da síndrome autista. FRITH (1991) sugeriu que a falha básica no autismo infantil é a falta de desenvolvimento precoce de uma "teoria da mente", levando a criança a não conceber que outras pessoas pensam e têm sentimentos. O não desenvolvimento de uma teoria da mente levará a um inevitável déficit de empatia. Tal déficit, contudo, não afeta a habilidade da criança de observar o mundo e manter sua razão lógica.
Ainda que os sentimentos, tais como medo, raiva, alegria, estejam necessariamente afetados em crianças que apresentam déficits de empatia, ocorreu uma baixa concordância na questão ISR01, que se refere à capacidade da criança de manifestar seus sentimentos e afetos, demonstrando que os aspectos afetivos não são mais sintomas confiáveis para a realização do diagnóstico. Esse fato reforça teorias que consideram o autismo, principalmente, decorrente de comprometimentos na senso-percepção e não decorrente de comprometimentos da instância afetiva, como inicialmente acreditava Kanner.
Decidiu-se pela manutenção da questão que se refere ao contato visual, pois, além de ter havido concordância total entre os profissionais, esse sintoma é um dos primeiros a ser observados antes do final do primeiro ano de vida da criança autista e, juntamente com mímica, gestualidade e expressão corporal, é um dos principais reguladores da interação social.
No aspecto comportamento estereotipado e restrito (CER), verificou-se um índice maior de concordância entre todos os avaliadores, para os autistas, nos itens CER02, CER03, CER06, CER08 e CER09. Essas questões obtiveram taxas que indicam de média a alta concordância entre todos os pares de avaliadores, sendo que as questões CER06 e CER09 também obtiveram boa concordância na média dos avaliadores. Essas questões referem-se à capacidade criativa das crianças avaliadas, um sintoma necessário ao diagnóstico e com altas taxas de concordância, quando presentes. Importante ressaltar que essas taxas que indicam de média a alta concordância só apareceram no grupo das crianças autistas, não havendo concordância entre os avaliadores das crianças surdas ou com déficit intelectual sem autismo.
As questões que se referem às preocupações fora do contexto (CER03), intimamente relacionadas com ideias obsessivas, e à presença de comportamento compulsivo, na forma de rituais, também apresentam boas taxas de concordância entre os pares de avaliadores. A manutenção de rituais e comportamentos motores mais complexos obtiveram taxas de concordância maiores do que a estereotipia motora ou posições rebuscadas. Esses comportamentos ritualísticos costumam estar acompanhados de aumento da atividade motora, estreitamento do campo de consciência, atenção focada unicamente no ritual, diminuição da vigilância. Quando forçados a abandonar as práticas ritualísticas, pode-se observar um quadro de irritabilidade, agressividade e agitação psicomotora.
Quando as questões se referiram à mímica e gestualidade da criança, os coeficientes não indicaram uma concordância satisfatória. As questões LEC09 e LEC10 foram mantidas, apesar de encontrada uma baixa concordância, devido a sua importância para o estudo das práticas não verbais com crianças autistas e por serem, juntamente com o contato visual, importantes reguladores da interação social e fundamentais na diferenciação de crianças com distúrbios da linguagem expressiva.
Associado ao quociente de inteligência, a aquisição de linguagem verbal tem demonstrado ser um importante elemento do prognóstico. Por essa razão, criou-se uma nova opção de resposta (SR= sem resposta) no aspecto LER, pois tem se verificado que as crianças que não apresentam linguagem verbal têm um prognóstico pior do que as que aprendem a falar até cinco anos de idade, embora a fala, muitas vezes, não objetive comunicação. Esse artifício permite que se perca o importante dado que é a criança não falar. Sua pontuação é maior por sua importância no prognóstico das crianças. Nesse aspecto, os dados encontrados não são específicos da criança autista, sendo encontrada alta incidência de crianças que não falam entre a população de surdos e com retardo mental.
Embora os itens do aspecto comportamentos inespecíficos (CIN) não sejam essenciais para o diagnóstico da síndrome, algumas perguntas do questionário-piloto foram mantidas, no questionário final (CIN01 a CIN06), por se referirem a sintomas comportamentais frequentes e com importantes repercussões na dinâmica familiar e rotina de trabalho com as crianças. Esses sintomas são aqueles associados a uma excessiva atividade motora com déficit de concentração, auto e heteroagressividade e comportamentos fóbicos. Foram também esses itens que obtiveram taxas que indicam de média a alta concordância entre os pares de avaliadores. As questões associadas aos distúrbios da sensibilidade e compulsão por alimentos não obtiveram bons índices de concordância. Os itens que indicaram altas taxas de concordância entre os autistas não obtiveram o mesmo êxito com as crianças surdas ou com retardo mental puro
A mãe demonstra concordar mais com os profissionais que atendem a criança, contrastando com o pai, que costuma discordar mais dos profissionais quanto à interação social e comportamentos restritos e estereotipados. Creio que esse fato se deva à presença mais constante das mães, como acompanhantes dos filhos autistas nas diversas instituições ou serviços, ampliando seu contato com os profissionais. As mães da amostra passam a maior parte do tempo dentro da escola e, enquanto aguardam seus filhos serem atendidos, acabam tendo uma troca mais intensa de informações com os profissionais, seja informalmente ou em trabalhos estruturados de orientação familiar. A não aceitação do diagnóstico de seus filhos, a negação do problema ou sentimentos ambivalentes em relação à criança e, consequentemente, menor contato afetivo, tanto com o filho quanto com a esposa, fazem que os pais costumem ser mais ‘ausentes’ nos cuidados com as crianças e tenham uma visão distorcida dos comportamentos apresentados pelos seus filhos. As famílias em que os cônjuges mantêm um relacionamento afetivo estável, além de participarem do tratamento da criança, costumam apresentar níveis menores de estresse familiar.
No aspecto comportamentos estereotipados e restritos, houve uma diferença significativa entre os grupos para os escores de todos os avaliadores, inclusive o avaliador A3. As médias e medianas dos escores dos avaliadores do grupo de crianças autistas tendem a ser maiores do que as dos escores dos avaliadores dos grupos de crianças com retardo mental e crianças surdas. Quando comparamos os escores das crianças autistas e das surdas, verifica-se uma diferença significativa ( p<0,05) entre os escores de todos os avaliadores. O mesmo ocorre quando comparamos os escores das crianças com retardo mental e das surdas, havendo diferença significativa entre os grupos para todos os avaliadores.
Ainda nesse aspecto, o questionário-piloto demonstrou um poder discriminativo entre os grupos de crianças autistas ou com retardo mental e o grupo de surdas. As médias dos escores das crianças surdas foram abaixo de zero para três avaliadores, demonstrando uma ausência de sintomas ligados a estereotipias motoras, rituais e à capacidade criativa nesse grupo.
Ao se compararem os escores das crianças autistas e das crianças com retardo mental, verificou-se uma diferença significativa entre os dois grupos para dois avaliadores (A1 e A4), demonstrando que esse aspecto é fundamental para um diagnóstico diferencial entre os grupos citados, já que, como veremos adiante, no aspecto linguagem e comunicação, a exemplo do aspecto interação social recíproca, também não houve diferença significativa entre os dois grupos. A presença, nos autistas, de interesses sensoriais e preocupações estranhas, apego idiossincrático aos objetos e rituais, quando somados à ausência da capacidade criativa, são sinais importantes para o diagnóstico diferencial de autismo infantil e retardo mental.

REFERÊNCIA: 
Moraes C - Autismo Infantil, in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, 2004. (Acesso em 07/3/2017 – 15:40 h).


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

" AS FLORES DO MAL "





 Je Suis Charles Baudelaire –
(O Perverso)

 Se a vida econômica e social de Baudelaire era um completo caos, o seu talento literário cresceu vertiginosamente. Tornou-se um influente crítico de arte, destacando-se nas mostras anuais de pintura e de escultura, conhecidas como “Salão”. A partir do Salão de 1845, a sua crítica de arte avançou os costumes da época, definindo o princípio que iria seguir vários artistas de então.
Em 1847, lançou “Fanfarlo”, único romance que escreveu, constituindo uma obra autobiográfica. No ano seguinte, em 1848, envolver-se-ia na revolta que assolou a França, ajudando na publicação de alguns jornais de protestos radicais. Não teve grande atuação no levante, saindo sem que se prejudicasse.
A partir de 1852, Baudelaire passou a traduzir para o francês os textos do escritor norte-americano Edgar Alan Poe, de quem era um acirrado admirador. Concluiria a tradução em 1865.
O momento mais importante e polêmico da vida e da obra de Baudelaire, dar-se-ia em 1857, quando da publicação da primeira edição de “As Flores do Mal”. Considerada a obra-prima de Baudelaire, “As Flores do Mal” trazia um volume com cem poemas. Numa linguagem inovadora, que oscilava entre o sublime e o grotesco, numa imposição lírica à realidade fria da vida. Ao abordar temas controversos para a época, como o lesbianismo e o satanismo, o livro escandalizou os leitores e os críticos. A edição foi publicada por um velho amigo do poeta, Poulet-Malassis. Menos de um mês após ser posto à venda, o livro sofreu uma mordaz crítica do jornal “Le Figaro”, com efeito devastador na carreira de Baudelaire, sendo estigmatizado como poeta maldito. Baudelaire e o seu editor, Poulet-Malassis, foram acusados de obscenos, de atentarem à moral e aos bons costumes, sendo multados em quinhentos francos, sendo trezentos pagos pelo poeta e duzentos pelo editor do livro. Seis poemas foram considerados demasiadamente imorais, sendo-lhes proibida a publicação. Baudelaire escreveria seis novos poemas para substituí-los.
Em 1861, quando do lançamento da segunda edição, acrescentaria outros trinta e cinco poemas. A edição completa, trazendo os poemas proibidos, só seria publicada a partir de 1911, muitos anos após a morte do autor.
Por muito tempo Baudelaire frequentou o famoso “Club des Hashishins”, formado por um grupo de fumantes de haxixe que se reuniam no Hotel Pimodan, onde o poeta viveu por um bom tempo. A experiência com as drogas resultaria no livro “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”, publicado em 1860, trazendo uma confissão pessoal e especulação sobre plantas alucinógenas, que teve inspiração parcial na obra do escritor inglês Thomas de Quincey, “Confissões de Comedor de Ópio”.
(Baudelaire alerta que um Estado racional jamais poderia subsistir com o uso do haxixe: “Este não produz nem guerreiros nem cidadãos. Na verdade, o haxixe é proibido ao homem sob pena de degradação e morte intelectual, de transformar as condições primordiais de sua existência e romper o equilíbrio de suas faculdades com o meio. Se existisse um governo interessado em corromper os seus governados, bastaria encorajar o uso do haxixe. É possível imaginar um Estado onde todos os cidadãos se embriagassem de haxixe? Que cidadãos! Que guerreiros! Que legisladores!”. Hipócrita, omisso e perverso, ao se esquivar de discutir os inevitáveis “Paraísos Artificiais”, nosso Estado apresenta-se conivente aos “Infernos Reais” BAUDELAIRE, Charles. Paraísos Artificiais – O haxixe, o ópio e o vinho. Ed. L&PM Pocket (1998) São Paulo, SP..)
Baudelaire ainda tentou candidatar-se à Academia Francesa de Letras, na esperança de agradar à mãe, elevar a sua carreira de escritor e perder o estigma de poeta maldito. Mas teve a sua pretensão desencorajada pelos amigos.

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Segundo Lacan, o perverso necessita, muitas vezes, de um fetiche para a obtenção de prazer, já que não consegue simbolizar a angústia provocada, pela falta. A construção do fetiche “serve” para dar conta do que é da ordem do real. E essa construção é feita por deslocamento. Trata-se de uma formação defensiva inconsciente. O fetiche serve para “tamponar” a castração, que é angustiante. Esta, é admitida e recusada pelo perverso que, depois, recalca esta recusa. O perverso recusa qualquer simbolização da falta materna, já que a mãe se mostra como ser desejante, portanto, faltosa.
O perverso não quer se haver com seu desejo. Para tanto, ele acredita ser completo. E, assim, ele se coloca como objeto de gozo do Outro, e coloca o outro (as pessoas) apenas como instrumentos facilitadores de seu gozo. Ele acredita ter o falo e, por isto, tem o comportamento de desafio perante a lei, já que ele acredita ser mais do que a lei. Mas ele precisa da lei, para poder desafiá-la. E é neste constante desafio e comportamento transgressor, provocando angústia inesperada no outro, que faz surgir seu gozo
É interessante mencionar que o perverso busca sempre o mais-gozar, relacionado a um gozo fantástico impossível de ser alcançado. Além disso, é fundamental entender que, a cisão do eu, instaurada pela recusa, fundamentaria uma labilidade argumentativa, onde o perverso diz e desdiz qualquer coisa que lhe poupe angústia na situação em que estiver envolvido, sem compromisso com o que mencionou.
     Lacan vai a partir do fetiche, apresentar a estrutura de toda a perversão, ao mostrar a dupla função do véu e da cortina. Assim,
O véu é a um só tempo o que esconde e o que designa. Na perversão, trata-se, para o sujeito, de esconder a falta fálica da mãe, embora designe com a ajuda do véu, a figura daquilo de que há falta [...] O véu esconde o nada que está para além do Objeto enquanto desejo do Outro: a mãe não tem o falo. Mas, ao mesmo tempo e mesmo assim, o véu é o lugar onde se projeta a imagem fixa do falo simbólico: a mãe tem o falo. (JULIEN, 2002, p.111-112)
Ainda segundo Lacan, a projeção da imagem fálica que esconde o Nada é o que o sujeito coloca diante dele, e isto determina algumas perversões como: fetichismo, masoquismo, voyeurismo e homossexualidade feminina. Mas o fetiche pode ser colocado atrás do véu, onde o sujeito se identifique com a mãe, e isto também determina perversões como: transvestismo, sadismo, exibicionismo e homossexualidade masculina. (apud JULIEN, 2002).
Assim, “todo gozo fálico é perverso, isto é, estabelece relação sexual graças ao Outro, completo“.
Diferentemente, do que ocorre na neurose, na perversão é a partir do primeiro supereu, aquele do tempo primordial, que o perverso vai fixar sua lei, o imperativo de seu gozo, pois, de acordo com Chaves (2004, para. 17): 
O gozo perverso está no desafio ao pai e na transgressão de suas leis, na compulsão à repetição e na satisfação pulsional sádica e masoquista. O perverso (...) goza de transgredir as leis do pai e de desafiá-lo ao extremo de usurpar o seu lugar e o seu poder, fazendo da Lei, a lei de sua própria pessoa - melhor dizendo, a lei de seu supereu arcaico, que lhe ordena: "goza!" 
A forma como esse momento da constituição psíquica infantil se dá na constituição do sujeito perverso remete ao período denominado de pré-edipiano, que é marcado pela ocorrência e prevalência da relação imaginária mãe-criança-falo. Nesse período, a criança acredita que à mãe nada falta. Quando ela percebe que a mãe não é dotada de pênis, há a recusa da aceitação deste fato, daquilo que é percebido como castração da mãe, ou seja, a criança percebe e recusa, ao mesmo tempo, a falta fálica de sua mãe, da qual se defende por meio de uma operação de defesa que Freud denominou de desmentido (Verleugnung), um modo de defesa que será constitutivo, segundo Lacan, da estrutura perversa, a saber, do modo como nela se dá a relação do sujeito com o significante da falta. (Valas, 1990)
 O desmentido é um mecanismo de defesa por meio do qual o sujeito se recusa a reconhecer a realidade de uma percepção negativa, no caso, a ausência de pênis na mulher (Roudinesco, 1998, p. 656). É precisamente por meio dessa negação da castração, que esta se torna presente, fator que irá diferir o sujeito perverso do sujeito psicótico. No perverso, existe recalque (da castração materna), portanto ele está inserido no contexto simbólico e reconhece a diferença sexual. Ele sabe que deveria haver um objeto lá, mas reconhece que não há, detendo-se na sua observação. Por isso, ele produz esse objeto – o fetiche – como substituto fálico da mãe castrada.
Ao erigir esse substituto, o objeto herdará todo o interesse que outrora fora voltado para o pênis. Além disso, o objeto fetiche não permitirá que o perverso esqueça o horror frente à castração, já que ele o trata como uma cena de representação desta (Freud, 1927/2006).  É oportuna a colocação de Chaves (2004) quando afirma que:
  
(...) O objeto fetiche (falo imaginário) representando o pênis que falta à mulher, renega tão bem a castração materna que o sujeito, mesmo dividido em seu eu, se protege tão bem da "senhora" angústia - relacionada à mãe castrada - que até parece nunca tê-la conhecido.
 O sujeito perverso produz o fetiche no momento em que a observação do corpo da mãe se interrompe. Por isso, muitas vezes o sapato, a barra do vestido, por exemplo, pode assumir a função de substituto daquilo que não é visto, mas que é formulado como sendo aquilo que a mãe possui, a saber, o falo imaginário (Lacan, 1956 – 1957 / 1995).

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Baudelaire, Charles. As Flores do Mal .São Paulo: Círculo do Livro, 1995.
Freud, S. (2006) O problema econômico do masoquismo (1924) In: J. Srachey (Ed. e    J. Salomão, Trad.) Edição Standart Brasileira das obras psicológicas completas    de  Sigmund Freud. (Vol. 19, p,p. 175-188). Rio de Janeiro: Imago. (Original    de   1924). 
Freud, S. (2006). Fetichismo. In: J. Srachey (Ed. e J. Salomão, Trad.) Edição    Standart Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (Vol.    21, p.p. 151-160). Rio de Janeiro: Imago. (Original de 1927).
Lacan, J. (1995). O Seminário. Livro 4: A relação de objeto (Dulce Duque  Estrada,Trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Original de 1956 - 1957).


A POESIA, EM SI.

Heautontimoroumenos (tradução)

Sem cólera te espancarei,

Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei, 

Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E nem meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
– Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir!
  
Héautontimorouménos (original)

Je te frapperai sans colère 

Et sans haine, comme um boucher,
Comme Moïse le rocher
Et je ferai de ta paipière,

Pour abreuver mon Saharah
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon désir gonflé d’espérance
Sur tes pleurs salés nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon coeur qu’ils soûleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grâce à la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord

Elle est dans ma voix, la criarde!
C’est tout mon sang ce poison noir!
Je suis le sinistre miroir
Où la mégère se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon coeur le vampire,
– Un de ces grands abandonnés
Au rire éternel condamnés
Et qui ne peuvent plus sourire!




quinta-feira, 18 de setembro de 2014

LIBERDADE DE EXPRESSÃO





 "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" 

E, acrescentando: Não critique o que você não consegue fazer melhor, publico aqui a

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS SOBRE LIBERDADE DE EXPRESSÃO

(Aprovado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos em seu 108º período ordinário de sessões, celebrado de 16 a 27 de outubro de 2000). 

PREÂMBULO 

REAFIRMANDO a necessidade de assegurar, no Hemisfério, o respeito e a plena vigência das liberdades individuais e dos direitos fundamentais dos seres humanos através de um Estado de Direito;

CONSCIENTES de que a consolidação e o desenvolvimento da democracia dependem da existência de liberdade de expressão;

PERSUADIDOS de que o direito à liberdade de expressão é essencial para o avanço do conhecimento e do entendimento entre os povos, que conduzirá a uma verdadeira compreensão e cooperação entre as nações do Hemisfério;

CONVENCIDOS de que, ao se obstaculizar o livre debate de ideias e opiniões, limita-se a liberdade de expressão e o efetivo desenvolvimento do processo democrático;

CONVENCIDOS de que, garantindo o direito de acesso à informação em poder do Estado, conseguir-se-á maior transparência nos atos do governo, fortalecendo as instituições democráticas.

RECORDANDO que a liberdade de expressão é um direito fundamental reconhecido na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, na Declaração Universal de Direitos Humanos, na Resolução 59(I) da Assembleia Geral das Nações Unidas, na Resolução 104 adotada pela Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e em outros instrumentos internacionais e constituições nacionais;

RECONHECENDO que os princípios do Artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos representam o marco legal a que estão sujeitos os Estados membros da Organização dos Estados Americanos;

REAFIRMANDO o Artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, que estabelece que o direito à liberdade de expressão inclui a liberdade de buscar, receber e divulgar informações e ideias, sem consideração de fronteiras e por qualquer meio de transmissão;

CONSIDERANDO a importância da liberdade de expressão para o desenvolvimento e a proteção dos direitos humanos, o papel fundamental que lhe é atribuído pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o pleno apoio estendido à Relatoria para a Liberdade de Expressão como instrumento fundamental para a proteção desse direito no Hemisfério, na Cúpula das Américas realizada em Santiago, Chile;
 
RECONHECENDO que a liberdade de imprensa é essencial para a realização do pleno e efetivo exercício da liberdade de expressão e instrumento indispensável para o funcionamento da democracia representativa, mediante a qual os cidadãos exercem seu direito de receber, divulgar e procurar informação;

REAFIRMANDO que tanto os princípios da Declaração de Chapultepec como os da Carta para uma Imprensa Livre constituem documentos básicos que contemplam as garantias e a defesa da liberdade de expressão e independência da imprensa e o direito a informação;

CONSIDERANDO que a liberdade de expressão não é uma concessão dos Estados, e sim, um direito fundamental; e

RECONHECENDO a necessidade de proteger efetivamente a liberdade de expressão nas Américas, adota, em apoio à Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão, a seguinte Declaração de Princípios: 

PRINCÍPIOS

            1.         A liberdade de expressão, em todas as suas formas e manifestações, é um direito fundamental e inalienável, inerente a todas as pessoas. É, ademais, um requisito indispensável para a própria existência de uma sociedade democrática.

            2.         Toda pessoa tem o direito de buscar, receber e divulgar informação e opiniões livremente, nos termos estipulados no Artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Todas as pessoas devem contar com igualdade de oportunidades para receber, buscar e divulgar informação por qualquer meio de comunicação, sem discriminação por nenhum motivo, inclusive os de raça, cor, religião, sexo, idioma, opiniões políticas ou de qualquer outra índole, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social.

            3.         Toda pessoa tem o direito de acesso à informação sobre si própria ou sobre seus bens, de forma expedita e não onerosa, esteja à informação contida em bancos de dados, registros públicos ou privados e, se for necessário, de atualizá-la, retificá-la e/ou emendá-la. 

            4.         O acesso à informação em poder do Estado é um direito fundamental do indivíduo. Os Estados estão obrigados a garantir o exercício desse direito. Este princípio só admite limitações excepcionais que devem estar previamente estabelecidas em lei para o caso de existência de perigo real e iminente que ameace a segurança nacional em sociedades democráticas.  

            5.         A censura prévia, a interferência ou pressão direta ou indireta sobre qualquer expressão, opinião ou informação através de qualquer meio de comunicação oral, escrita, artística, visual ou eletrônica, deve ser proibida por lei. As restrições à livre circulação de ideias e opiniões, assim como a imposição arbitrária de informação e a  criação de obstáculos ao livre fluxo de informação, violam o direito à liberdade de expressão.  

            6.         Toda pessoa tem o direito de externar suas opiniões por qualquer meio e forma. A associação obrigatória ou a exigência de títulos para o exercício da atividade jornalística constituem uma restrição ilegítima à liberdade de expressão. A atividade jornalística deve reger-se por condutas éticas, as quais, em nenhum caso, podem ser impostas pelos Estados.

            7.        Condicionamentos prévios, tais como de veracidade, oportunidade ou imparcialidade por parte dos Estados, são incompatíveis com o direito à liberdade de expressão reconhecida nos instrumentos internacionais.

            8.        Todo comunicador social tem o direito de reserva de suas fontes de informação, anotações, arquivos pessoais e profissionais.

            9.         O assassinato, o sequestro, a intimidação e a ameaça aos comunicadores sociais, assim como a destruição material dos meios de comunicação, violam os direitos fundamentais das pessoas e limitam severamente a liberdade de expressão. É dever dos Estados prevenir e investigar essas ocorrências, sancionar seus autores e assegurar reparação adequada às vítimas.

            10.       As leis de privacidade não devem inibir nem restringir a investigação e a difusão de informação de interesse público. A proteção à reputação deve estar garantida somente através de sanções civis, nos casos em que a pessoa ofendida seja um funcionário público ou uma pessoa pública ou particular que se tenha envolvido voluntariamente em assuntos de interesse público. Ademais, nesses casos, deve-se provar que, na divulgação de notícias, o comunicador teve intenção de infligir dano ou que estava plenamente consciente de estar divulgando notícias falsas, ou se comportou com manifesta negligência na busca da verdade ou falsidade das mesmas.

            11.       Os funcionários públicos estão sujeitos a maior escrutínio da sociedade. As leis que punem a expressão ofensiva contra funcionários públicos, geralmente conhecidos como “leis de desacato”, atentam contra a liberdade de expressão e o direito à informação.

         12.       Os monopólios ou oligopólios na propriedade e controle dos meios de comunicação devem estar sujeitos a leis antimonopólio, uma vez que conspiram contra a democracia ao restringirem a pluralidade e a diversidade que asseguram o pleno exercício do direito dos cidadãos à informação. Em nenhum caso essas leis devem ser exclusivas para os meios de comunicação. As concessões de rádio e televisão devem considerar critérios democráticos que garantam uma igualdade de oportunidades de acesso a todos os indivíduos.

            13.       A utilização do poder do Estado e dos recursos da fazenda pública; a concessão de vantagens alfandegárias; a distribuição arbitrária e discriminatória de publicidade e créditos oficiais; a outorga de frequências de radio e televisão, entre outras, com o objetivo de pressionar, castigar, premiar ou privilegiar os comunicadores sociais e os meios de comunicação em função de suas linhas de informação, atentam contra a liberdade de expressão e devem estar expressamente proibidas por lei. Os meios de comunicação social têm o direito de realizar seu trabalho de forma independente. Pressões diretas ou indiretas para silenciar a atividade informativa dos comunicadores sociais são incompatíveis com a liberdade de expressão.




quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O DIVÃ VIRTUAL


D I V Ã     V I R T U A L

                        Uma em cada três crianças tem presença virtual.
                        É moda, agora, os pais postarem nas redes sociais a ultrassonografia dos filhos mesmo antes deles nascerem.
Nove entre dez, antes de completarem dois anos, já possuem algum tipo de armazenamento de dados na internet.
Por dia, estima-se que se produzam três exabytes de informações que circulem pelo globo terrestre.
Big Data é o nome que s dá a essa enorme fonte de informação digital.
Dessa informação já é possível identificar e traçar perfis psicológicos das pessoas plugadas virtualmente.
Já há em uso softwares capazes de substituir até mesmo psicólogos na tarefa de manter e mesmo estudar o perfil de funcionários de uma empresa.
O Google há muito usa essa ferramenta no levantamento de dados, com foco em seu público alvo, quanto aos interesses em seus produtos.
É vapt vupt. Em questão de segundos, realiza-se busca em três milhões de computadores.
Para o psicólogo Welle (2013) “para coordenar pessoas, é mais confiável guiar-se por dados do que pela intuição, que é cheia de preconceitos”.
Muitas empresas do segmento de informática usam computadores, em vez de psicólogos, para gerenciar a trajetória profissional. O Google gerencia os seus mais de trinta mil funcionários dessa forma.
 No recrutamento, são os softwares que selecionam os currículos e os perfis antes das entrevistas.
No Brasil. O grupo Votorantim é o pioneiro na aplicação do Big Data em seu recrutamento. Diante disso, uma empresa a ele ligada, desenvolveu um algoritmo capaz de traçar em redes sociais, o perfil de candidatos, o que tornou muito mais rápido o processo de contratação.
Em consequência, está havendo uma inversão. Os candidatos enviavam currículos para o preenchimento de vagas. Agora, os softwares é que detectam os profissionais, ainda que empregados, que não mandaram currículo para a vaga disposta. As empresas buscam profissionais, não desempregados, oferecendo-lhes um melhor salário.
 Com isso, o Big Data, com o seu garimpo, tem se mostrado um excelente recurso na busca da boa mão de obra, entre os três exabytes, produzidos por três bilhões de pessoas.
                        Já existem em alguns países diversos softwares em operação para recrutamento de profissionais em diversos segmentos da sociedade, bem como outros para a avaliação de perfis.
                        Esse universo virtual abriu portas para que se saiba tudo sobre todos.
                        A Dilma que o diga.
                        Não há dúvidas que estamos diante de uma grande revolução de costumes na humanidade.
Encontra-se de tudo nas redes sociais. Ofertas de serviços, datas comemorativas, sucessos e insucessos pessoais, humores, comportamentos, pensamentos, emoções e etc.
                        Há pesquisas conclusivas que indicam que as pessoas costumam ser mais sinceras no ambiente virtual do que seriam no tête-à-tête.  
                        Aproveitando todo esse avanço tecnológico e fazendo a junção com o modelo psicoterápico de Aaron Beck, pode-se ter uma ferramenta útil para diagnosticar, nas redes sociais, os pensamentos, emoções e comportamentos de seus usuários.
Aaron Beck é mundialmente conhecido por suas pesquisas em psicoterapia, psicopatologia, suicídio e psicometria, que levou à criação da Terapia Cognitiva.
Entre os fatores protetivos, por ele declinados, temos a flexibilidade cognitiva, apoio social, ausência de fatores precipitantes, tratamento do transtorno e apoio social.
Porque não, através das redes sociais?
Uma forma de prevenção (o que é pouco usual) seria o estudo do comportamento dos indivíduos, através das suas manifestações de pensamentos automáticos (postagem), que, por sua vez, são gerenciados por suas crenças.
Não é difícil identificar nas redes os elementos cognitivos dos indivíduos, através de simples pesquisa e, depois, preparar planos de tratamentos psicoterápicos.
Os dados estão aí, disponibilizados pelos “pacientes virtuais”. Basta interpretá-los.
O modelo psicoterápico de Beck foi criado em 1.960. De lá, pra cá, muito água rolou sob a ponte.
Ele mesmo, na apresentação de sua obra, fala da “tremenda quantidade de novas pesquisas existentes”.
Seu modelo cognitivo propõe que o pensamento disfuncional (que influencia o humor e o pensamento do paciente) é comum a todos os transtornos psicológicos. Quando as pessoas aprendem a avaliar seu pensamento de forma mais realista e adaptativa, elas obtêm uma melhora em seu estado emocional e no seu comportamento.
Na prática, se sabe que os pacientes no divã, ocasionalmente, relatam duas vertentes de pensamento: uma de livre associação e outra de pensamentos rápidos de qualificações sobre si mesmo que estão intimamente ligados às suas emoções.
É sobre o aproveitamento dessa qualificação, que ocorre em abundancia nas redes sociais, a que me refiro.
Beck enfatiza que a terapia deve se adequar a cada indivíduo e que existem determinados princípios que estão presentes para todos eles.
Por exemplo, manifestar tristeza ao dizer que é um fracasso, através de um comportamento (que vai abandonar os estudos).
Essa teoria enfatiza inicialmente o presente (quer presente mais atual que as postagens colocadas instantaneamente nas redes?), além de ser estruturada. Ela usa uma variedade de técnicas para mudar o pensamento, o humor e o comportamento.
                        No divã virtual não seria necessário (então, suprimível) o questionamento socrático já que o que se descobre (inverso do guiado) é espontâneo. Basta se ler as abundantes postagens.
                        O que as pessoas pensam (cognição), fazem (comportamento) e como se sentem (afeto), são ditos espontaneamente, sem a necessidade de uma entrevista física.
                        Como é cediço, o comportamento humano é gerenciado por um sistema de crenças e pensamentos automáticos. A personalidade humana é, na verdade, um conjunto de crenças (centrais) específicas a cada contexto ambiental (externo) ao contexto interno (cognitivo).
Existem quatro afirmativas que norteiam tanto a teoria como o método terapêutico de Beck: Os indivíduos constroem ativamente sua realidade; a cognição medeia o afeto e o comportamento; a cognição é possível de ser conhecida e acessada; a  reestruturação cognitiva é componente central no processo psicoterápico para modificação do comportamento;
Assim, através do “Divã Virtual”, pode-se interpretar o que uma pessoa pensa de uma determinada situação, quando ela expõe suas emoções, afetos e comportamentos nas redes sociais.
Ao ativar essas crenças, o indivíduo gera um pensamento automático, sejam eles positivos ou negativos, que acabam por interferir em seu comportamento.
Na Terapia Cognitiva há um modelo diretivo em que as sessões são previamente determinadas.
Isto, no modelo tradicional criado por Becker. Nele há uma orientação para que se estabeleça uma agenda para a sessão tradicional. - Terapeuta X Paciente -. Nela, entre outras, recomenda-se verificar como se encontra o humor do paciente, informá-lo (educá-lo) como funciona a terapia e detalhar-lhe (enquadramento) sobre o atendimento.
Um dos temas recorrentes de Aaron Beck é o suicídio que é um comportamento autodestrutivo. Ele elencou alguns fatores protetivos, para essas pessoas, que deve ser posto em prática, em diversos segmentos da sociedade. No divã virtual, encontram-se todos eles.
Através da educação e informação é possível promover a conscientização sobre o problema, envolvendo, educadores, estudantes, família e, quiçá, os usuários das redes sociais.
No caso de suicidas, há a leitura dos sintomas que podem identificar os prováveis comportamentos. São eles ( os 4 D’s): Depressão, Desesperança, Desamparo e Desespero.
Nessa linha de raciocínio, se atentarmos para essa gama de informações, que é postada segundo a segundo nas redes sociais, estaremos diante de uma mina de ouro para nossas pesquisas sobre o comportamento humano. Basta lê-las e interpretá-las.
Aliados ao Big Data e de posse de um software desenvolvido para esse fim, não será difícil identificar, pela análise das mensagens, a variação do humor dos usuários das redes.
Basta que se de ao programa as palavras chaves desejadas, tais como; “humor”, “alegria”, “tristeza”, para que ele trace o perfil desejado.
Assim, se alguém digitar:
“Estou chateado porque a Faef cortou minha bolsa de estudos”; ou, “Que decepção pelo STF dar novo julgamento aos mensaleiros”; ou, “Fiquei muito triste com a morte do Airton Senna”, estas frases se encaixam no título de tristeza.
Por outro lado se você ler a frase:
“Ebaaa, meu timão goleou o Palmeira”; ou, “Enfim, férias”, essas frases serão computadas em alegria.
Algumas frases também podem identificar possíveis suicidas: “Eu prefiro a morte”; “Eu não posso fazer nada”; “Eu sou um peso morto”; “Eu não vou fazer falta mesmo”.
Com certeza, nas recentes manifestações de rua que eclodiram por todo o país, predominaria entre nós o sentimento de raiva devido ao descaso dos governantes com verbas públicas usadas na construção de estádios, padrão Fifa, em detrimento da saúde e educação.
Esta técnica, com certeza, pode vir a ser uma ótima ferramenta de trabalho para os profissionais da saúde, especialmente os da saúde mental, que lidam, cada vez mais, com uma demanda de alto risco.
Pode também ser uma  ótimo avaliador da autoestima das pessoas.


REFERÊNCIAS:
BECK, J. Terapia Cognitivo-Comportamental. Artmed. 2013 – São Paulo. SP.
KNAPP. P. Fundamentos, Modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2008.
Revista Psique. Dossiê: Suicídio. Edição n.º 92, Editora Escala. 2013. SP.
Revista Veja. Achados na Multidão Virtual. p.101/103. Edição 2040. 2013. Editora Abril. SP.